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VOCÊ SABE LER?
Cármen Lúcia Coelho
À primeira vista, esta pergunta pode
parecer estranha, uma vez que para entendê-la é preciso obviamente saber
ler. Porém, a proposta da questão é mais séria do que se possa
inicialmente supor. Quando o assunto é leitura, nós brasileiros,
ocupamos um lugar muito desconfortável nas avaliações internacionais.
Como, exemplo, podemos citar os últimos resultados do desempenho dos
adolescentes brasileiros no PISA- 2003/2006 Programa Internacional de
Avaliação de alunos - promovido pela OCDE em parceria com INEP /MEC.
Estamos situados em 52º lugar no ranking internacional, perdendo
inclusive para países com muito menos recursos do que o Brasil. Isso
significa que, embora grande parte dos alunos brasileiros saiba
decodificar (decifrar o código lingüístico), eles não compreendem o que
estão lendo. Se não entendem, o objetivo principal da leitura fica
perdido.
E qual é o objetivo da leitura? É ter uma
postura ativa diante do texto, para que, ao final desse processo, algo
seja compreendido. É preciso que o leitor interaja com o texto. Isto
significa que, quando alguém escreve algo, seja uma frase, um poema ou
uma instrução, deseja comunicar alguma coisa àquele que vai ler sua
mensagem, que, por sua vez precisa ativar uma série de mecanismos e
conhecimentos para compreender o que está lendo. Assim quando se lê:
"SILÊNCIO!", não é preciso mais que essa palavra para que compreendamos
que estamos em algum lugar no qual o barulho certamente incomodará. Em
geral, pensamos em um hospital, ou um estúdio de gravação, por exemplo.
Em outras circunstâncias, podemos precisar de muitas palavras para com
unicar nosso estado de espírito, ou para orientar um complicado processo
de montagem de determinado equipamento. Entre tantas possibilidades, a
leitura é muito mais do que saber o significado das palavras, é
construir uma representação mental daquilo que está sendo dito, por meio
das palavras escritas.
Portanto, ler é, antes de tudo, um ato de
raciocínio, que vai envolver, além das palavras e seus significados, a
estrutura e organização dessas palavras nas frases. Ademais, envolve uma
série de conhecimentos que não estão escritos no texto, mas que são
inferidos, deduzidos, a partir do nosso conhecimento sobre o mundo. Isso
é, tudo aquilo que sabemos sobre o assunto sobre o qual se está lendo é
ativado para permitir uma compreensão correta. Para exemplificar,
imagine que você está lendo um texto no qual aparece a seguinte frase: -
Beatriz foi ao restaurante. Com certeza, na sua tela metal, você
imaginou um lugar com mesas, cadeiras, garçons, pratos, comida, etc. É
claro que, de pessoa para pessoas, o tipo de restaurante vai variar, as
cores, os pratos, etc, porém, ninguém vai imaginar uma mesa de cirurgia,
luvas descartáveis, soro, bisturis... Para compreender a frase : -
Beatriz foi ao restaurante, eu não preciso dizer que naquele lugar havia
copos, pratos, garçons, etc. O nosso conhecimento de mundo preenche essa
lacuna, com informações que recheiam o texto de forma implícita. Mas,
além de enxertar o conhecimento que temos sobre o que está sendo lido,
ainda precisamos integrar essas informações (fora do texto), com aquelas
que estão escritas (no texto), costurando, interconectando, de forma
coerente todas essas informações. Com se não bastasse, também é preciso
avaliar se estamos, ou não, entendendo o que estamos lendo, para
corrigir, quando necessário, as lacunas de compreensão que ocorrem
durante a leitura. Para que, como já foi dito, no final desse processo,
o texto seja compreendido, e a mensagem comunicada.
Voltando à pergunta - Você sabe ler?
Parece que a tarefa não é tão simples assim. Por isso, é preciso que as
escolas desenvolvam estratégias de leitura que permitam que o aprendiz
leia para compreender. Por quê? Embora isso não seja regra geral, na
educação, tradicionalmente, o ensino da leitura é enfocado para que se
possa aprender a escrever, ou para fazer o uso normativo da língua, isto
é, escrever de forma correta, de acordo com a norma culta, com a
gramática. É claro que, escrever de forma correta é fundamental, mas
para além do uso normativo da língua, é preciso ensinar a fazer uso
instrumental. Ou seja, ensinar a utilização da língua como instrumento
de comunicação, de conhecimento, de lazer, de informação, de raciocínio,
etc. Para isso, é preciso colocar mãos à obra. É preciso estudar mais,
se informar mais, criticar mais. Embora muitos profissionais já estejam
conscientes dessa necessidade e tentando abrir caminho, criar
estratégias e buscar recursos, a grande maioria se defende argumentando
que, no tempo delas isso não existia, e elas aprendiam a ler de forma
correta. Entre outras possibilidades, essa maneira de encarar o problema
não nos leva a parte alguma, a não ser garantir uma desculpa pronta e
aceitável. Por outro lado, para enfrentarmos esse desafio, é preciso
mudar a maneira de encarar o problema, sair da inércia e buscar
soluções. É necessário aprofundar esse assunto, discutir com nossos
pares, estudar cada vez mais. Dessa forma, poderemos para ajudar a
tantas crianças, jovens e adultos que carregam sobre os ombros a penosa
missão de entender o que é incompreensível, a acreditarem mais em si
mesmas porque são capazes de compreender o mundo por meio das palavras
escritas.
MÃES
SÃO TODAS DOUTORAS.....
Autor não identificado
Uma mulher foi renovar a sua carteira de motorista. Pediram-lhe para
informar qual era a sua profissão. Ela hesitou, sem saber bem como se
classificar. "O que eu pergunto é se tem um trabalho", insistiu o
funcionário. "Claro que tenho um trabalho!", exclamou a mulher. "Sou
mãe!". "Nós não consideramos mãe um trabalho. Vou colocar Dona de casa",
disse o funcionário friamente. Não me lembrei mais disso, até o dia em
que me encontrei em situação idêntica. A pessoa que me atendeu era
obviamente uma funcionária de carreira, segura, eficiente, dona de um
título sonante. "Qual é a sua ocupação?" Perguntou. Não sei o que me fez
dizer isto; as palavras simplesmente saltaram-me da boca para fora: "Sou
doutora em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas." A
funcionária fez uma pausa, a caneta de tinta permanente a apontar para o
ar, e olhou-me como quem diz que não ouviu bem. Eu repeti pausadamente,
enfatizando as palavras mais significativas.
Então, reparei, maravilhada, como ela ia escrevendo, com tinta preta, no
questionário oficial. "Posso perguntar", disse-me ela com novo
interesse, "o que faz exatamente?"
Calmamente, sem qualquer traço de agitação na voz, ouvi-me responder:
"Desenvolvo um programa a longo prazo (qualquer mãe faz isso), em
laboratório e no campo experimental (normalmente eu teria dito dentro e
fora de casa). Sou responsável por uma equipe (minha família), e já
recebi quatro projetos (meus filhos). Trabalho em regime de dedicação
exclusiva (alguma mulher discorda???), o grau de exigência é em nível de
14 horas por dia (para não dizer 24 horas).
Houve um crescente tom de respeito na voz da funcionária que acabou de
preencher o formulário, ao levantar-se e pessoalmente me abrir a porta.
Quando cheguei em casa, com o título da minha carreira erguido, fui
recebida pela minha equipe :uma com 13 anos, outra com 7 e outra com 3.
Do andar de cima, pude ouvir o meu novo experimento (um bebê de seis
meses), testando uma nova tonalidade de voz. Senti-me triunfante!
Maternidade... que carreira gloriosa! Assim, uma avó deveria ser
chamada: "Doutora-Sênior em Desenvolvimento Infantil e em Relações
Humanas". Uma bisavó: "Doutora- Executiva- Sênior". E as tias: "Doutoras
- Assistentes". Eu acho!
Um abraço afetuoso da equipe do CNSD pelo dia das Mães.
MÃES MÁS...
“Um dia, quando os meus filhos forem
crescidos o suficiente para entenderem a lógica que motiva os pais e as
mães, eu hei de dizer-lhes:
Eu os amei o suficiente para ter perguntado: onde vão, com quem vão e a
que horas regressarão?
Eu os amei o suficiente para não ter ficado em silêncio e fazer com que
vocês soubessem que aquele novo amigo não era boa companhia.
Eu os amei o suficiente para os fazer pagar as balas que tiraram da
mercearia e os fazer dizer ao dono: "Nós roubamos isto ontem e queríamos
pagar".
Eu os amei o suficiente para ter ficado em pé junto de vocês 2 horas,
enquanto limpavam o seu quarto; tarefa que eu teria realizado em 15
minutos.
Eu os amei o suficiente para os deixar ver além do amor que eu sentia
por vocês, o desapontamento e também as lágrimas nos meus olhos.
Eu os amei o suficiente para os deixar assumir a responsabilidade das
suas ações, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o
coração.
Mais do que tudo, eu os amei o suficiente para dizer-lhes não, quando eu
sabia que vocês poderiam me odiar por isso. Essas eram as mais difíceis
batalhas de todas.
Estou contente, venci... porque no final vocês venceram também! E
qualquer dia, quando meus netos forem crescidos o suficiente para
entenderem a lógica que motiva os pais e as mães, meus filhos vão lhes
dizer quando eles lhes perguntarem se a sua mãe era má: "Sim... Nossa
mãe era má. Era a mãe mais má do mundo.
As outras crianças comiam doces no café e nós tínhamos de comer cereais,
ovos e torradas. As outras crianças bebiam refrigerante e comiam batatas
fritas e sorvete no almoço e nós tínhamos de comer arroz, feijão, carne,
legumes e frutas. E ela obrigava-nos a jantar à mesa, bem diferente das
outras mães, que deixavam os filhos comerem vendo televisão.
Ela insistia em saber onde nós estávamos a toda hora. Era quase uma
prisão. Mamãe tinha que saber quem eram os nossos amigos e o que nós
fazíamos com eles. Insistia que lhe disséssemos que íamos sair, mesmo
que demorássemos só uma hora ou menos.
Nós tínhamos vergonha de admitir, mas ela violou as leis de trabalho
infantil. Nós tínhamos de lavar a louça, fazer as camas, lavar a roupa,
aprender a cozinhar, aspirar o chão, esvaziar o lixo e todo o tipo de
trabalhos cruéis. Eu acho que ela nem dormia à noite, pensando em coisas
para nos mandar fazer.
Ela insistia sempre conosco para lhe dizermos a verdade, e apenas a
verdade. E quando éramos adolescentes, ela até conseguia ler os nossos
pensamentos.
A nossa vida era mesmo chata.
Ela não deixava os nossos amigos tocarem a buzina para que nós
saíssemos. Tinham de subir, bater à porta para ela os conhecer. Enquanto
todos podiam sair à noite com 12, 13 anos, nós tivemos de esperar pelos
16.
Por causa da nossa mãe, nós perdemos imensas experiências da
adolescência. Nenhum de nós esteve envolvido em atos de vandalismo,
violação de propriedade, nem fomos presos por nenhum crime.
Foi tudo por causa dela. Agora que já saímos de casa, nós somos adultos,
honestos e educados, estamos a fazer o nosso melhor para sermos "pais
maus", tal como a nossa mãe foi.
Eu acho que este é um dos males do mundo de hoje:
Não há suficientes Mães más...”
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